sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

Caminhos abertos

Se posso caminhar assim, sempre
porque querem me impedir?
deixar as coisas como estão
partir para ficar bem
mas há alguma coisa a frente?
ou é só uma fachada a mais
de insólita discografia
que já conheço
de cores que já compartilho
de vídeos
que já namorei
de risos que já amadureceram
de cabelos longos
que já tive.
Se posso caminhar assim,
que seja breve
meu caminho
mas com muitas curvas
pois a vida é curta demais
com tantas coisas a fazer,
a sentir
o vento na face
coisas assim de frase fácil de gente qualquer
eu
sou
qualquer
e não estou nem ai.

sexta-feira, 25 de novembro de 2011

Precisando de Ar

Preciso parar,
descer
sair correndo
para longe
definitivamente
sair em disparada
pelo asfalto quente
pelas ruas
cheias de gente
na verdade
de metal com borracha
e vidro
com sujeitos inchados
ao volante
querendo rir
querendo me ver fritar
no asfalto
quero distancia
quero correr
quero o vento
a liberdade
um lugar
distante
um gramado
um lugar ao vento
um lugar ao sol
tranquilo
sem carros
deixe-me em paz.

sábado, 15 de outubro de 2011

Professor

ser professor é realizar uma utopia
de todos os dias
com as vestes de uma esperança
que sei,
parece tardia,
as vezes pequena e frágil,
outras gigante mitológico,
noutras vezes
carece de substância material
mas encarnamos o rito
estamos prontos ao sacrifício
conscientes de nossos francos vestígios Aristotélicos
de nossa arquitetura angular marxista
do respeito a uma geografia do saber de Freire.
Somo professores, não há muito a dizer
de nosso saber,
cuidamos das sementes,
e somos pastores que privilegiam a independência
o crescimento da consciência
de ser humano,
somos um pouco Nietzsche na busca de Ecce Homo
ao mesmo tempo nos confortamos com as múltiplas perguntas
sim,
estas,
estamos em busca não das respostas,
mas que esses seres que nos procuram
passem a questionar
a realidade
que é,
em parte,
irreal e construída,
afinal como qualquer realidade...

sexta-feira, 10 de junho de 2011

Dias Assim

Por vezes não sabemos o que nos atingiu
apenas paramos de caminhar
e ficamos ao sol
a desenhar na areia
ou ainda sentados na praça
a olhar os edifícios.
Por vezes não sabemos o que nos atingiu
se uma chuva branda
ou um novo ciclo de vida
uma nova estrutura na estrada
um gosto amargo do café da esquina
o doce sopro do leste.
Por vezes sabemos exatamente o que nos atinge
uma forte e densa vontade de viver
um sonho colorido
com rosas vermelhas
e elefantes azuis
poderia ficar mais perto
do mar
sem caminhar
apenas esperando os respingos frios das ondas.

segunda-feira, 30 de maio de 2011

Os versos que escrevo para lembrar da poesia da floresta e da vida

Sempre que me propunha a fazer uma trilha
o que mais me emocionava não era o fim
e sim o meio,
as raízes retorcidas em busca de espaço
o solo coberto de folhas
os pequenos animais nem ai para quem passa
os grandes te observando a distância
o vento que sobra no dossel e voce ali protegido
entre os troncos
os cipós barrando o caminho e te dando a liberdade de parar e respirar
a agonia de não chegar,
mas a música que corre na cabeça
para fazer tempo
ou o olhar que vibra pelo sendeiro.
É assim,
sempre gostei de "fazer" a trilha render
e quando chegava ao final,
notadamente o cume
ficava atônito
perdido na desilusão do gozo final
mas esperançoso em fazer tudo de novo
para sentir o chão suave e denso da trilha.

Posso comparar minha vida a isso
estudo, estudo, para chegar a algum lugar
mas o que venho descobrindo diariamente
é o prazer de conhecer sempre mais
de poder ter as raízes a minha volta
as letras a serem decifradas
os vícios de linguagem a serem vencidos
os verbos inacabados a serem inventados
o imperfeito de um futuro distante
a ser remediado e confrontado com a dialética
do cotidiano
do real.
Me sinto assim
forte e cheio
como copo com água fresca após suar e tremer
após correr e cair
beber em goles longos e frios
viver a cada coragem e queda
quebra e vitória.
Me sinto assim agora
talvez por ter tido vitória recente
por ter escrito tanta coisa
e lido tanta coisa
e descoberto o quanto eu gosto
de fazer tudo isso
sempre e de novo
como a trilha
de minha vida
que é sempre a do Crista
que amo e não abandono.

domingo, 13 de março de 2011

1º Conto - As Luzes do Universo - Sexta Parte

O Último Passeio no Campo

O ano estava terminando e ele foi passar mais um final de semana no campo com a mamãe. O pai estava na capital ou em outro lugar qualquer dando ordens, escrevendo cartas, falando ao telefone, dando nomes. Ele não sabia, mas isso era o que parecia o trabalho do pai. Nesse dia o céu estava muito azul e estava quente. Ele pensava no rio que iria refrescar sua pele, no dia com mamãe que hoje estava muito feliz. Os dois falaram muito no carro, mamãe que nunca corria muito, nesse dia acelerava ao máximo o motor. O carro passando rápido por outros carros, por cercas, gente, animais, asfalto. Falavam bem alto para conseguir se ouvir acima do barulho do motor. O carro corria. Fizeram o percurso da cidade a casa de campo em menos de duas horas. Mamãe chegando lá pediu ajuda para tirar as coisas do carro. Era estranho. Ela sempre trazia apenas um pacote com um pouco de comida e uma bolsa, hoje ela estava com muitas bolsas, e muitos pacotes de comida. Mas ele não pensou muito, apenas ajudou a mamãe com as coisas. Levou tudo para dentro, ligou a geladeira, colocou os alimentos. Colocou as roupas no armário. Varreu a casa. Tudo para agradar a mamãe que estava sorrindo muito. Não reparou nas duas garrafas de bebida que ela trazia na bolsa dela. Não reparou que sorria demais e a toda hora. Afinal era difícil ver mamãe sorrindo tanto, mas o que isso importava? Ele queria ela vê-la feliz não importando o que isso significava. Ficaram juntos o dia inteiro, correram descalços na grama, colheram flores para o vaso da cozinha. Foram juntos para o rio, mergulharam, brincaram na água como ela nunca havia feito. Ficaram deitados na margem olhando as nuvens que percorriam no céu. Mamãe lhe falou da infância dela, pela primeira vez. E também deixou que ele lhe perguntasse o que quisesse sobre ela. Tudo isso era novo. Mas era tão fantástico esse novo, essa mudança, que ele nem percebeu perigo. Ficou feliz por poder falar com sua mamãe como falava com seu amigo que morreu, ou do velho da banca, ou do velho professor. Ele também falou a ela, contou as suas histórias, sua paixão pelos animais, seu interesse pelo formigueiro do quintal, por todos os formigueiros do mundo, pelas idéias de um tal de Darwin, sobre os animais pensarem e terem uma comunidade, sobre sua confusão sobre os comunistas que matavam crianças e matavam velhos da banca de jornais. Sobre o velho professor que sumiu. Falou muito até perceber que ela estava lhe olhando séria, um pouco aturdida pela primeira vez em olhar assim ao filho, pela primeira vez ouvindo o filho dessa forma. Ela sempre fora uma boa mãe, um pouco ausente, mas sempre o punha a dormir, lhe dava comida, banho, cuidava bem dele. Mas mantinha uma certa distância. Só lhe dava a mão na porta da igreja para entrar ou sair. Agora no entanto ela ouvia e falava com ele. Era um mundo novo. Magnífico. Ele pensou que agora poderia finalmente conversar sobre o que sentia sobre o mundo e queria saber o que eram aquelas enormes filas de gente que apareciam na TV, o que eram aquelas pessoas chamadas seqüestradores que apareciam como procuradas em um dia, e depois apareciam mortas em suas celas. Queria saber, afinal muitas vezes ele via a TV, mesmo as escondidas até seus pais chegarem em casa. Queria saber sobre as pessoas da família que nunca os visitavam, mas que estavam nos retratos espalhados pela casa. No tio da cicatriz que desapareceu. Mamãe ouvia agora em total silencio, é como se pela primeira vez ela o visse, como se ele fosse algo estranho a ela, totalmente novo e diferente dela, como se fosse outra carne, outro sangue. De outra família. Ela o observava como um fato raro, um presente novo. Ela o abraçou em meio as perguntas que ele fazia. O abraçou forte demais, quase o machucou, suas lágrimas molharam-no. Ela o apertava com se tivesse medo de perdê-lo. Ficou falando coisas incompreensíveis para ele, de como estava arrependida, da dor que teria ao vê-lo partir, do sentimento de ser mãe. Ficaram abraçados por um tempo que não pode ser contado, pois a emoção turva tempo e espaço, esconde o cotidiano, escurece o conhecimento. Naquela noite, eles dormiram abraçados. Ele não se lembrava de quando isso havia acontecido a ultima vez, ou que houvesse acontecido alguma vez. Dormiram abraçados e ela chorou a noite inteira e fez ele chorar também. Como se se descobrissem mãe e filho somente agora.
No dia seguinte acordaram exaustos fisicamente, mas muito felizes, compartilhavam algo agora, ela os segredos dele, ele lhe conhecia o sorriso e choro. Tomaram café e foram caminhar pela montanha por trilhas distantes, como também nunca tinham feito. Ele pode ver animais que não conhecia, e plantas também, ela lhe mostrou os restos de lápides e disse que eram de um antigo cemitério. Viram os nomes antigos nas lápides, tentaram achar algum com o seu sobrenome. Ele perguntou a ela sobre seu nome de solteira, ela não disse claramente, ficou sentada comendo uma maça, absorvia pelos seus próprios pensamentos, como se tivesse tentando lembrar quem era antes e onde estava aquela que já se fora. Caminharam até o sol se pôr e dormiram sobre as mochilas juntos a uma fogueira. Fazia frio, como sempre acontece nas montanhas. Mas o importante é que estavam juntos. Não sentiam tanto o frio, se olharam enquanto havia luz suficiente. Ele lembrou desse dia por toda a sua vida. Foi a única vez em que sentiu que ela era sua mamãe.
Voltaram no domingo a noite. A casa estava silenciosa, tudo escuro. Pegaram a chave da cozinha sob o tapete, entraram. Acenderam as luzes da cozinha e da sala, prepararam uma refeição comeram juntos, sempre conversando. Jamais ele havia falando tanto com alguém como nesse final de semana. Sentia-se vivo e que alguém poderia lhe compreender os desejos, as vontades, sua história e que poderia lhe ajudar a compreender o mundo. Não passava pela sua cabeça porque sua mamãe demorava tanto tempo em lhe ter como filho, em lhe falar em sorrir e chorar daquela forma. Claro que ela sempre lhe fora gentil, lhe sorria levemente, lhe dizia algo típico de mãe, mas nunca lhe havia demonstrado tantos sentimentos, seja em aniversário, natal ou qualquer outra data. Parecia que duas datas eram fundamentais naquela casa, o sete de setembro e o 31 de março. O primeiro ele sabia perfeitamente bem. O segundo ele apenas adivinhava.
A segunda feira foi ainda mais incrível, a mamãe não se levantou cedo, não preparou o café, dispensou a empregada, e não deixou-o ir a escola. Levou-o ao centro da cidade, deram voltas pela orla, caminharam no calçadão. Foram a praia, tiraram os sapatos, andaram muito tempo em silêncio. Sentaram nas pedras e viram o pôr do sol sobre as montanhas. Sentiram que estavam muito unidos. Na volta para casa passaram em um mercado compraram comida e prepararam. Mamãe estava esquisita de novo, com olhar perdido. Era como se o sol tivesse levado a juventude dela, toda a sua alegria se perdeu, estava flácida, com ombros caídos, tímida de novo. Ele tentou falar com ela, mas só conseguiu de volta resignação.
Ele foi dormir pensando no que tinham feito, e no que havia acontecido para ela estar assim, pensava que então a necessidade de acordar cedo e trabalhar de novo era o que a deixava triste novamente.
A semana transcorreu exatamente como todas as outras da sua vida, escola, casa vazia ao chegar, comida na mesa, panquecas, café e leite. Viu um pouco de TV e foi para a cama, ele estava amargurado demais, algo não estava bem, pensava muito na sua mamãe e em como ela havia despertado por três dias. Agora, tudo como antes. Ela saiu cedo, de uniforme impecável. Voltou tarde e estava muito preocupada, como sempre.

segunda-feira, 7 de março de 2011

O Casamento

A tanto tempo esperamos
sempre procurando,
parece uma vida inteira,
mas é sempre parte dela,
sempre uma parte que iniciamos
sempre algo que pensamos antes.
O casamento é um instante sequer do universo
mas que emoção causa em nossas organismos
ligamos nossas emoções e nossos riscos a alguém
em que queremos confiar e partilhar.
Um risco a mais na nossa existência,
mas vale a pena,
vale a pena?
Todo dia alguém grita, corta, bate,
bufa, chora... ainda assim vale a pena
por todas as lágrimas, muito mais sorrisos
por todo grito, palavras de compreensão
parceiros natos, ou inatos?
mas que constroem uma cumplicidade sem igual.
Maldita religião que destrói a simples eminência do casal
que inventa emoções impossíveis,
basta viver um casal, como a natureza,
se adaptar é preciso,
não é um deus,
mas um cotidiano muito louco do século XXI que os espera
com seus ritmos alucinados,
com trabalho,
conhecimento,
morte,
vida,
nascimento,
sexo...
é a essa que temos que sobreviver e viver
e trocar
partilhar toda a dor e amor possíveis
acreditar no outro mais do que qualquer coisa,
mas atentos ao mundo
as pessoas,
enfim a humanidade,
pois a essa estamos casado desde nosso nascimento
a diferença é que agora escolhemos entre a multidão
alguém em especial
para caminhar conosco
para distribuir nossa ração
para construir nossa palhoça
para caçar e fazer o pão.
Há algo diferente em nós,
que nos faz amar tanto, e por vezes odiar tanto
o casamento une as duas coisas
é preciso se deixar levar pelo amar
pelo sentir a pele
por rir das coisas mais simples
por beijar todo dia a pele
regar as plantas da emoção
colher as flores do orvalho da manhã
e deixar com o café cheirando forte sobre a cama.
O casamento é muitas coisas
mas somos nós que direcionamos
como o queremos,
como o perdemos,
como o levamos.
Mesmo que pelo breve instante de nossas vidas,
mesmo que seja por apenas parte de nossas vidas
ainda assim
é algo maravilhoso
e mágico
para quem quer a
magia.